Coração Azul
No fim de semana passado recebi aqui na Invicta uma visita que para além de muitas outras coisas boas me deu a conhecer a poesia de Manuel de Freitas. Pois bem, desde então não tenho feito outra coisa (deveria era enredar-me nas traduções do Santo Agostinho que me compram 15 dias de férias em Roma) senão devorar o Manuel de Freitas. Há já muito tempo que não lia um poeta português de quem gostasse tanto. Para ser mais concreta, estou apaixonadissima: eis mais um affair literário que está para durar. E não resisto em compartilhar convosco um dos seus poemas que têm feito as minhas delicías verbais nos últimos dias. Foi dificil a escolha e ainda não é pacífica, mas seria complicado postear livros interiros. De qualquer modo um poema vale mais do que qualquer coisa que eu possa dizer. Obrigada, Victor, pelo presente maravilhoso!
1685-1750
1.
Acabamos sempre assim, esquecidos
ou lembrados entre a poeira de duas datas.
Foram anos, esses, de extrema
devoção à única das artes.
Só é pena que hoje me doa tanto
o testículo direito, a vista cansada
do mundo. Arnstadt, Weimar, Leipzig
-as cidades do Senhor
uniam-se no crime da pefeição
e não há, para isso, palavras.
Como se não bastasse o génio,
povou a terra de filhos virtuosos:
o inventor da ternura romântica;
o baptista de Amadeus; aquele outro ainda
que a tristeza e o álcool incesnsaram.
mas nenhum desses (ou dos mais)
esteve alguma vez tão próximo do
infigurável absurdo a que chamamos Deus.
II
São dias de extermínio, agora.
O punhal das horas já não
cede ao alaúde nem ao cravo torturado
pela mudez. Repugnam-me simplesmente
estes dias devagar e não sei com que letras
se escreve nunca mais o nome do amor
(deixaei de confiar a alma a um celeiro podre).
Quando a música de um homem assim
não consegue demover-nos da angústia,
percebemos que a vida é morte
-impossíveis os gestos, as fugas, os desejos.
Amanhece e eu não. O sono deixou-se
pousar ao lado do livro que não pude ler
e mesmo o que escrevi sobre a morte,
embora exacto, era afinal aproximativo.
Sou agora plenamente o meu cadáver.
ofereço-lhe um cigarro, o que sobra
de cerveja, a memória das cantatas
que me salvaram do tédio, do suicídio
e de mim próprio. Talvez seja um sentido,
uma ânsia de dissipação que encontrou
o seu termo moral, espiritual, orgânico.
Não sei.
Todas as palavras se tornaram para o sangue
uma mesma mentira, entre o exorcismo
e a ameaça. No fundo, a dizer havia apenas
isto: a luz que explode na janela
já não encontra corpo nem vontade.
in [Sic]
1685-1750
1.
Acabamos sempre assim, esquecidos
ou lembrados entre a poeira de duas datas.
Foram anos, esses, de extrema
devoção à única das artes.
Só é pena que hoje me doa tanto
o testículo direito, a vista cansada
do mundo. Arnstadt, Weimar, Leipzig
-as cidades do Senhor
uniam-se no crime da pefeição
e não há, para isso, palavras.
Como se não bastasse o génio,
povou a terra de filhos virtuosos:
o inventor da ternura romântica;
o baptista de Amadeus; aquele outro ainda
que a tristeza e o álcool incesnsaram.
mas nenhum desses (ou dos mais)
esteve alguma vez tão próximo do
infigurável absurdo a que chamamos Deus.
II
São dias de extermínio, agora.
O punhal das horas já não
cede ao alaúde nem ao cravo torturado
pela mudez. Repugnam-me simplesmente
estes dias devagar e não sei com que letras
se escreve nunca mais o nome do amor
(deixaei de confiar a alma a um celeiro podre).
Quando a música de um homem assim
não consegue demover-nos da angústia,
percebemos que a vida é morte
-impossíveis os gestos, as fugas, os desejos.
Amanhece e eu não. O sono deixou-se
pousar ao lado do livro que não pude ler
e mesmo o que escrevi sobre a morte,
embora exacto, era afinal aproximativo.
Sou agora plenamente o meu cadáver.
ofereço-lhe um cigarro, o que sobra
de cerveja, a memória das cantatas
que me salvaram do tédio, do suicídio
e de mim próprio. Talvez seja um sentido,
uma ânsia de dissipação que encontrou
o seu termo moral, espiritual, orgânico.
Não sei.
Todas as palavras se tornaram para o sangue
uma mesma mentira, entre o exorcismo
e a ameaça. No fundo, a dizer havia apenas
isto: a luz que explode na janela
já não encontra corpo nem vontade.
in [Sic]


1 Comments:
olá: gostei muito do poema. Obrigado
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