Disponivel para...Subtilezas
Tenho andado a repor no meu cinema (isto é, no meu PC) alguns filmes incontornáveis, daqueles cujo não visionamento tem como consequência um bilhete directo para o Inferno. Sim, já fui vaiada por nunca ter visto o "Magnólia", uma fatwa pende sobre a minha pobre cabeça por o "Bom, o Mau e o Vilão" não constar na linha lista de filmes já vistos e já me disseram que não mereço viver enquanto não tiver visto o Fellini completo. Comecei a pouco e pouco a tentar liberta-me deste fardo e comecei por me estrear no Fellini com o "Roma". A exuberância da estética felliniana, o expressionismo das caras que compõem o filme deixarei para outra altura. Vim falar de subtileza, e o Roma é para mim um filme forte, agressivo, de contrastes, ruidoso, em suma, não é um filme tímido. Ora não querendo confundir alhos com bugalhos e portanto subtileza com timidez, quero no entanto pôr a tónica em filmes de estética mais comedida, onde o dito se revela no não-dito, e a subtileza se trasforma num fio narrativo tão importante como a própria história. Falo em concreto do filme de Wong Kar-Wai, "Disponível para Amar", que também foi uma das minhas grandes lacunas cinematográficas até ontem à noite, lacuna essa que já me provocava suores frios e repetidas noites de insónia. Depois de ter visto o filme, só posso mesmo é dar com a cabeça na parede e questionar-me com o inevitável "mas porque não vi eu isto mais cedo??" O filme é belíssimo. Uma fotografia de cortar a respiração, de nos querer deixar suspensos na imagem. A história? Poderia ser considerada banal: dois vizinhos descobrem que os seus conjuges tem um caso. Essa traição de que são vítimas cria uma aproximação entre os dois traídos, uma cumplicidade que vai até... nunca sabemos bem. É essa subtileza que me fascina: nada é explicito no filme, não há um único beijo, apenas olhares, olhares que pulsam de energia, que trasbordam de significado e que se dissimulam habilmente por detrás de conversas banais, em situações de encontros fortuitos. A câmara lenta que o realizador usa para focar momentos chave tendo como condutora não um diálogo mas a música, transforma esta última numa quase-personagem. Nada é dito, tudo é pressentido. Wong Kar-Wai usa a subtileza como meio para nos submeter ao domínio da Possibilidade: é o espectador tem liberdade para se mover e concluir (ou não) sobre o que realmente assistiu. Estou disponível para ver e rever.


2 Comments:
e a musica? sim esqueceste-te da musica..
caro leitor/a desatento/a: no final do meu post refiro-me ao papel que a música tem no filme. se quiser fazer o favor de reler...
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