sexta-feira, abril 09, 2004

Eles partem o mundo, mas não nos importamos

Isto de criar um blog numa Sexta-feira Santa tem que se lhe diga! Ainda mais um blog dedicado aos pequenos pecados. Está bem que são pequenos. Está bem que nem sequer nos condenam a danação eterna, mas são eles que nos apimentam a vida e nos tornam mais humanos.
Talvez marcada por este opressivo ambiente religioso e como "no princípio era o verbo", vou começar por aí. Fiquem com Boris Vian, que se não é divino, anda por lá perto!



Eles partem o mundo
Aos bocadinhos
Eles partem o mundo
À martelada
Mas pra mim é igual
Pra mim é igual
Ainda sobra muito para mim
Ainda sobra muito
Basta que eu ame
Uma pluma azul
Um caminho de areia
Um pássaro tímido
Basta que eu ame
Um ramo de erva fina
Uma gota de orvalho
Um grilo dos bosques
Podem partir o mundo
Aos bocadinhos
Ainda sobra muito para mim
Ainda sobra muito
Terei sempre um pouco de ar
Um pequeno fio de vida
Um pouco de luz o olhar
E vento nas urtigas
E mesmo e mesmo
Se me meterem na prisão
Ainda sobra muito para mim
Ainda sobra muito
Basta que eu ame
Esta pedra corroida
Estes ganchos de ferro
Onde o sangue se demora
Amo-o amo-o
A prancha gasta da minha cama
O colchao de palha e o catre
A poeira de sol
O ralo que se abre
Os homens que entraram
Que me avançam e me levam
Ao encontro da vida do mundo
E ao encontro da cor
Amo estes dois montentes
Esta faca triangular
Estes senhores vestidos de preto
É a minha festa e orgulho-e dela
Amo-a amo-a
Este cesto cheio de serradura
Onde vou pousar a cabeça
Oh amo-o a valer
Basta que eu ame
Uma pequena haste de erva azul
Uma gota de orvalho
Um amor de pássaros tímidos
Eles partem o mundo
Com os seus pesados martelos
Ainda fica muito para mim
Ainda fica muito meu coração.


Boris Vian